"Aos 70!"



Hoje, 25 de Agosto de 2020, o meu querido Pai, Affonso Domenico Pedrini, completaria 95 anos de idade, se estivesse conosco neste plano. A seguir, uma singela homenagem a ele, reproduzindo um poema de sua autoria, publicado em torno de um ano antes de seu falecimento. Pai, muito obrigado por tudo... Mas, principalmente, por seu exemplo de vida, de caráter, dignidade, generosidade, lealdade, simplicidade, humildade, de defesa da natureza e dos animais... Não estás mais neste plano terreno, mas os seus ensinamentos e ideais serão permanentemente lembrados e viverão para sempre...



AOS SETENTA


Affonso Domenico Pedrini


Só agora, aos setenta,
descobri que a existência vale a pena
se acompanhada do prazer de uma cambota.
Ah! que frustração a infância, a adolescência, a maturidade!
Por que não me ensinaram a virar cambotas?

Pelo contrário, encheram-me de letras,
de aritmética, matemática, geografia,
história, ciências, filosofia
e até de astronomia...
Mas por que não me ensinaram o principal,
a virar cambotas?
Oh! a sensação de uma cambota!
É assim como um carro que capota
sem comprometer a lataria.

Que adiantou latim, grego
e todas as línguas vivas?
O Direito e todas as filiais do Direito,
Se não aprendi a virar cambotas?

Nem disseram que a Galiléia
foi fundada pelos Galos ou Gauleses.
(Meu Deus! Será que Jesus era francês?)
Que a Samaria era um enclave babilônio
de Sargão nas terras da Judéia
para espreitar as caravanas de turistas
demandando as planícies da Mesopotâmia...

Os nossos veneráveis mestres deveriam,
antes de mais nada, preocupar-se, também, por ensinar a diminuir o ritmo
deste nosso planeta Terra
com suas estações fugazes e cambiantes.
Pois é sempre a mesma monotonia: - verão, outono, inverno, primavera
- e verãode novo! - ,
puxando atrás de si o Imposto de Renda e suas chatices,
os outros tributos... e os outros tributos.
(Só não se cobra - por enquanto o o tributo de Afrodite).

Será real esta nossa vida, ou tudo sonho e pesadelo?
Por certo tem razão
Platão:
- Dormimos ao nascer,
acordamos ao morrer.
Ou Cristo, na Cruz:
- Pai, perdoai-lhes porque ainda não acordaram
e não sabem o que fazem,
......... E virar mais uma cambota....

Sem esquecer, todavia, de parar, olhar, escutar
com muita atençao,
o trem iluminado do Alcorão,
levando marido a todas as mulheres,
com a sua privatização,
extinguindo, de vez, o adultério
e acabando com a prostituição.

Por derradeiro, divertir-se de pernas pro ar,
espiando os filhos das novelas, das favelas,
dos morros do Rio
cobrando tributos a seus criadores,
como nos áureos tempos do monstro e o cientista,
Depois... bem depois, é só virar uma cambota,
rolar pelo chão, e rir, rir às pampas
das tevês
e da humana estupidez.

(Poema "Aos Setenta", de Affonso Domenico Pedrini. Livro "Poetas do Ministério Público". Porto Alegre, Ed. AGE, 1996, pp. 41 e 42.)

Pai, hoje compreendo, com mais clareza, que o sentido da existência está nas coisas simples da vida e a verdadeira felicidade está dentro de cada um de nós...