A IMPORTÂNCIA DOS SINTOMAS EM HOMEOPATIA



A IMPORTÂNCIA DOS SINTOMAS EM HOMEOPATIA - PARTE I


M.V. Celso Affonso M. Pedrini

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INTRODUÇÃO

Os sintomas desempenham um papel preponderante para a compreensão e a aplicação do sistema terapêutico que utiliza o princípio dos semelhantes. Foi a partir da observação e comparação dos sintomas apresentados pelos doentes, com os sintomas originados pelas mais diversas substâncias, quando administradas em indivíduos saudáveis, que Samuel Hahnemann estruturou e desenvolveu, há mais de dois séculos atrás, o método baseado em "similia similibus curantur", que já havia sido anteriormente citado por Hipócrates. Atualmente, a partir de conceitos da Física moderna, podemos vislumbrar um futuro onde os sintomas poderão ser interpretados não somente a partir de alterações celulares e moleculares, mas, também, apresentando um campo de energia correspondente, o que vem de encontro ao conceito de imaterialidade relacionado à ação dos medicamentos homeopáticos. A verdade é que, apesar da ciência médica oficial ainda possuir algumas restrições quanto à sua concepção e ao seu modo de ação, a Homeopatia proporciona excelentes resultados no tratamento de seres humanos e de outras espécies do reino animal, aliviando e curando os sintomas das mais diversas doenças, além de melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes, fato corroborado por uma pesquisa clínica que realizamos em caninos e felinos, com um alto grau de eficácia.

O VITALISMO

"J. P. Barthez (1734-1806), da escola de Montpellier, considerado o fundador do verdadeiro vitalismo, formulou a concepção ternária do ser humano: corpo + princípio vital + alma. O princípio vital torna vivo o corpo material, sendo a causa que produz os fenômenos da vida no corpo humano e sendo fonte das propriedades biológicas de todas as partes do organismo, entre elas, a contratibilidade e a sensibilidade. A patologia vitalista baseou a doutrina que a escola de Montpellier manteve durante quase todo o século XIX." (KOSSAK-ROMANACH, 1984, pp. 82 e 83)

É importante observar a concepção ternária no vitalismo, pois o princípio vital é diferente tanto do corpo quanto do espírito:

"Segundo Barthez o princípio vital não equivale à alma, sendo um princípio natural ativo e unitário que manifesta sua atividade de diferentes formas e se encontra unido à matéria orgânica. Não evidenciável dentro das partes, todavia é passível de estudo através de suas manifestações. Responde pelas propriedades biológicas de sensibilidade, de contratibilidade e pela 'força de situação fixa' ou capacidade dos órgãos recuperarem posição, forma e tamanho quando desviados da normalidade." (KOSSAK-ROMANACH, 1984, p. 83)

De acordo com Célia Barollo:

"Vitalismo é a doutrina segundo a qual o funcionamento psicofísico do indivíduo é coordenado por uma forma de energia imaterial que interliga todas as suas partes. Essa energia é chamada de Energia Vital - EV - Força Vital ou Princípio vital, não sendo perceptível aos nossos sentidos, distinta não só da alma pensante ou intelecto, como das propriedades físico-químicas do organismo. O homem é um ser social com qualidade volitiva e intelectiva. Quando sua EV vibra harmonicamente, ele se encontra em perfeito estado de saúde, ou seja, não se observam sintomas tanto no plano físico como no mental. (...) A existência de qualquer enfermidade no ser humano decorre de perturbações no fluxo dessa EV." (BAROLLO, 1995, p. 29)

A CONCEPÇÃO VITALISTA DE HAHNEMANN

Anna Kossak-Romanach ressalta a influência vitalista no pensamento de Hahnemann:

"Hahnemann interpreta saúde e doença com base no conceito de Força vital, orientado pelos pensadores que o antecederam e especialmente pela concepção ternária de Barthez, segundo a qual o homem se compõe de corpo + princípio vital + alma. (...) Serviu-se Hahnemann das ideias de Barthez para a interpretação da dinâmica das doenças e do mecanismo de cura segundo a lei da semelhança. (...) Sendo a Força vital de natureza dinâmica e imaterial, pode ser influenciada por algo igualmente dinâmico e imaterial - seja pela doença, seja pelo medicamento dinamizado. Enquanto o fator nóxio leva a Força vital ao desequilíbrio, instalando a doença, o medicamento dinamizado, dirigido pela similitude, atuará sobre a mesma Força vital reconduzindo-a ao equilíbrio inicial." (KOSSAK-ROMANACH, 1984, pp. 77 e 83)

O criador da Homeopatia afirma que o princípio vital, também chamado de força vital ou energia vital, é responsável pela harmonia de todo o organismo, em suas sensações e funções:

“No estado de saúde, a força vital imaterial (autocracia), que dinamicamente anima o corpo material (organismo), reina com poder ilimitado e mantém todas as suas partes em admirável atividade harmônica, nas suas sensações e funções, de maneira que o espírito dotado de razão, que reside em nós, pode livremente dispor desse instrumento vivo e são para atender aos mais altos fins de nossa existência.” (HAHNEMANN, Organon da Arte de Curar, & 9)

OS SINTOMAS REPRESENTANDO A PERTURBAÇÃO DA FORÇA VITAL

Hahnemann sustenta que os sintomas apresentados pelo doente são a única maneira de conhecermos a perturbação da força vital, verdadeira causa da doença:

“Quando o homem adoece, essa força vital imaterial de atividade própria, presente em toda a parte no seu organismo (princípio vital), é a única, que inicialmente sofre a influência dinâmica hostil à vida, dum agente morbígeno, é somente o princípio vital, perturbado por uma tal anormalidade, que pode fornecer ao organismo as sensações desagradáveis e impeli-lo, destarte, a atividades irregulares a que chamamos doença; pois essa força invisível por si mesma e apenas reconhecível por seus efeitos no organismo, torna conhecida sua perturbação mórbida apenas pela manifestação de doença nas sensações e funções (as partes do organismo acessíveis aos sentidos do observador e médico), isto é, por sintomas mórbidos, e não pode torná-lo conhecido de outra maneira.” (HAHNEMANN, Organon da Arte de Curar, & 11)

É claro que na época de Hahnemann (1755-1843) não haviam os modernos e sofisticados exames subsidiários que temos nos dias de hoje. Por isso, a importância que ele concedia aos sintomas do paciente: os sintomas refletiriam a perturbação da força vital, e isso seria tudo o que o médico deveria procurar e compreender em cada doente. Lembrando que Hahnemann rebelou-se contra a medicina oficial de sua época, que utilizava métodos antagonistas e derivativos de tratamento (sangrias, eméticos, purgantes, etc.), que acabavam prejudicando ainda mais a saúde do doente, levando-o, frequentemente, à morte.

De acordo com Jame Tyler Kent, os sintomas representam a alteração na energia vital, a natureza da enfermidade. Os sintomas são a linguagem da enfermidade, com o propósito de revelar o estado de desordem da energia vital. Assim sendo, os sintomas constituem a única base para a prescrição: semelhança entre a imagem da doença e a imagem do medicamento. Kent observa que a totalidade dos sintomas é a única representação da doença, devendo-se enfatizar o que há de “característico” no paciente, ou seja, os sintomas que são peculiares ao mesmo.

Os sintomas indicam o que pode ser curado em cada organismo, consistindo em uma oportunidade de compreendermos o doente. Por outro lado, é um mau prognóstico quando o paciente não apresenta sintomas próprios, individuais. De acordo com Hahnemann:

“Não há, no íntimo do homem, nada mórbido que seja curável, nem alteração mórbida curável, que não se revele ao médico observador por meio de sinais e sintomas mórbidos...” (HAHNEMANN, Organon da Arte de Curar, & 14)

SIMILIA SIMILIBUS CURANTUR

Hahnemann afirmava que tudo o que o médico poderia conhecer no doente seriam os seus sintomas, que, por sua vez, refletiriam a perturbação da força vital. Contudo, como tratar esta perturbação da força vital, verdadeira causa da doença? A partir da experimentação da China, Hahnemann confirmou o princípio da semelhança já enunciado por Hipócrates, cogitando a possibilidade de ampliar esta experimentação a outras substâncias, objetivando tornar conhecidos os efeitos terapêuticos das mesmas. Marcus Zulian Teixeira relata como Hahnemann se tornou o fundador da Homeopatia:

"Em 1790, ao traduzir a Matéria Médica de Cullen, questiona as propriedades medicinais da casca da quina (Cinchona officinalis) ali descritas, tendo o grande insight que o levou à fundamentação das bases da Doutrina Homeopática. Por discordar das propriedades digestivas da Cinchona ali relatadas, experimentou em si mesmo aquela substância, dando início ao grande método de experimentação científica do modelo homeopático, denominado, posteriormente, experimentação no homem são. Qual não foi o seu espanto, quando passou a apresentar sintomas semelhantes à malária (febre intermitente, calafrios, tremores, etc.), ao experimentar aquela substãncia que era utilizada para curar os indivíduos doentes acometidos pela malária. (...) A partir deste momento, direcionou suas pesquisas ao chamado princípio da semelhança, enunciando o aforisma similia similibus curantur (semelhante cura semelhante) que, juntamente com a experimentação no homem são, constituem os pilares fundamentais da prática homeopática. Através do princípio acima enunciado, qualquer substância que possua a propriedade de despertar sintomas (entendidos como características da individualidade humana), de qualquer ordem, num experimentador sadio, será capaz de curar estes mesmos sintomas no indivíduo enfermo. A quina cura os sintomas da malária no indivíduo doente, porque ela tem a capacidade de despertar os mesmos sintomas da malária nos indivíduos sadios." (TEIXEIRA, 1998, pp. 105 e 106)

EXPERIMENTAÇÃO NO HOMEM SÃO

G. H. G. Jahr relata que Hahnemann iniciou a pesquisar no homem sadio as mais diversas substâncias cujas virtudes terapêuticas não seriam conhecidas, a fim de que seus efeitos patogenéticos (representados pelos sintomas despertados por determinada substância em um organismo saudável) fossem revelados, acarretando a sua indicação para o tratamento de doenças específicas, que apresentassem sintomas semelhantes aos despertados na experimentação.

"Todas as substâncias que ele estudou não só se mostraram eficazes contra as doenças que apresentavam manifestações semelhantes às suas patogenesias, como também desenvolveram uma eficiência toda particular, muito mais direta, mais rápida e mais radical que todos os outros medicamentos até então empregados contra essas mesmas afecções" (JAHR, 1987, p. 35).

No parágrafo 21 do Organon, Hahnemann afirma que o princípio curativo dos medicamentos só é perceptível pelo seu poder de causar diferentes modificações no estado de saúde de indivíduos saudáveis, excitando vários sintomas mórbidos definidos, concluindo que os medicamentos só podem demonstrar sua qualidade curativa através de seu poder de alterar o estado de saúde do homem são produzindo sintomas peculiares.

"(...) Quando os medicamentos agem como meios de cura, só podem fazer funcionar sua capacidade curativa mediante esse seu poder de alterar o estado de saúde do homem produzindo sintomas peculiares. Assim, podemos confiar somente nos fenômenos mórbidos produzidos pelos medicamentos no corpo são como única indicação possível de seu poder curativo inerente, a fim de descobrir que poder produtor de moléstia e, ao mesmo tempo, poder de curar, possui cada medicamento." (HAHNEMANN, Organon da Arte de Curar, & 21)

A pesquisa e conhecimento do poder curativo de diferentes substâncias deve ocorrer tão somente em indivíduos saudáveis e sensíveis, que tenham a capacidade de desenvolver sintomas específicos e característicos de cada uma dessas substâncias, que devem ser experimentadas isoladamente, uma de cada vez. Existem protocolos de experimentação, a fim de que sejam observados, devidamente registrados e catalogados os mais diversos sintomas em nível mental, geral e físico. É importante enfatizar que cada experimentador reage como um todo, ao estímulo de cada substância:

“O que interessa na experimentação homeopática são os sintomas que a substância desperta no experimentador como sujeito. Nesse ponto deve-se destacar que, quando se administra o sinal medicamentoso no experimentador, nos casos em que este é sensível à substância, ele reage com sua totalidade e sua individualidade (...). Surge então o que tanto caracteriza o modelo homeopático que é justamente a totalidade sintomática individualizada. O experimentador não reage com um sistema ou um órgão – ele reage com sua totalidade e sua subjetividade, ou seja, é a ‘unidade do ser’ que se mobiliza (Marim 1998).” (BELLAVITE, 2002, p. 312)

PATOGENESIAS

Os sintomas despertados por cada substância em indivíduos saudáveis, mediante experimentação, são denominados de patogenéticos. O conjunto de patogenesias, oriundas de diferentes experimentações, compõe as diversas matérias médicas homeopáticas, sendo que estas consistem na mais confiável fonte de consulta para o conhecimento do poder de cura de cada medicamento homeopático.

“Cada pessoa possui características próprias, que se assemelham aos sintomas que um determinado medicamento provoca quando experimentado no homem são.” (BAROLLO, 1995, p. 22)

Cabe salientar que, além dos sintomas patogenéticos, oriundos de experimentações em indivíduos saudáveis, as matérias médicas homeopáticas são compostas também pelos sintomas originados por intoxicações, voluntárias ou acidentais, das mais diversas substâncias.

EXPERIMENTAÇÃO EM ANIMAIS

Mas poderiam ocorrer experimentações em animais? Na opinião de Anna Kossak-Romanach, experimentações em animais trariam contribuições indiretas, não sendo capazes de fundamentar as patogenesias, ocasionadas pela diversidade de resposta entre as espécies, além do viés ocasionado pela privação da transmissão através da palavra dos sintomas subjetivos. (KOSSAK-ROMANACH, 1984)

O médico veterinário homeopata Juan Agustín Gómes fala da possibilidade da experimentação em animais, pois a lei da semelhança é válida para todos os seres vivos. Entretanto, o homem seria o melhor animal para experimentação de substâncias, pois na experimentação em animais perderíamos a riqueza e sutiliza de detalhes e minúcias que somente a comunicação verbal poderia oferecer. (GÓMES, 1998)

OS SINTOMAS REVELAM A DOENÇA

Hahnemann expõe a base do unicismo, trazendo os conceitos de unidade e individualização:

“Desta verdade inegável, que além da totalidade dos sintomas, considerando-se as modalidades que os acompanham, nada pode de maneira alguma ser descoberto em doenças em que elas possam expressar sua necessidade de tratamento, conclui-se que indubitavelmente a soma desses sintomas em cada caso individual de moléstia deve ser a única indicação, o único meio de nos guiar na escolha de um remédio.” (HAHNEMANN, Organon da Arte de Curar, & 18)

Essa é a visão de Hahnemann: a totalidade dos sintomas (conceito de unidade) deve ser o único guia para escolha de um único medicamento (Hahnemann era unicista), em cada caso individual de doença (conceito de individualização). Ele também refere-se às modalidades que acompanham os sintomas, que veremos mais adiante.

A doença é causada pelo desequilíbrio interno da força vital, imaterial, invisível, que pode ser reconhecida apenas pela totalidade dos sintomas, que, por sua vez, são o reflexo da força vital que está perturbada. Sendo assim, a totalidade sintomática é a única coisa que o médico deve levar em consideração para tratar qualquer doença, conforme nos ensina Samuel Hahnemaan, criador da Homeopatia, baseado numa concepção vitalista:

"Como em uma doença a respeito da qual nada se apresenta a afastar da causa que manifestamente a ocasione ou mantenha (causa ocasionalis), não se pode perceber nada além dos sintomas (...) é preciso (...) que só os sintomas sirvam de guia na escolha dos meios próprios para a cura. A totalidade dos sintomas, esse quadro da essência interna da doença refletida para fora, isto é, a afecção da força vital, deve ser o principal e único meio pelo qual a enfermidade dá a conhecer o medicamento de que necessita (..) a totalidade dos sintomas deve ser, para o médico, a principal, a única coisa que ele deve ver em cada caso de doença, e afastar pela sua arte, a fim de curar a doença e transformá-la em saúde.” (HAHNEMANN, Organon da Arte de Curar, & 7)

OS SINTOMAS SÃO A CHAVE PARA A PRESCRIÇÃO

Conforme Marcelo Candegabe, os sintomas são a chave que Hahnemann encontrou para relacionar paciente e medicamento (CANDEGABE, 2010).

Kent afirma que, quando o indivíduo não está em total liberdade, ocorrem alterações em suas sensações e funções, ou seja sintomas. Deve-se considerar a totalidade sintomática característica de cada paciente, em relação aos seus sintomas mentais, gerais e físicos. Enfatizando os sintomas que irão distinguir o paciente: aqueles sintomas raros, estranhos e peculiares, que formarão a síndrome mínima de valor máximo, ou seja, aqueles poucos sintomas que representarão o quadro característico do paciente. E que servirão de base para encontrar o medicamento mais adequado para ele, colocando a sua força vital em harmonia e, dessa forma, restabelecendo a sua saúde. Os sintomas peculiares são aqueles que são específicos do doente, em um determinado quadro de doença, sendo que estes sintomas terão um valor maior.

Kent enfatiza a importância dos sintomas para o tratamento homeopático de doenças de caráter crônico: “Quando se prescreve para um doente crônico, os sintomas constituem a única base da prescrição; não há outra maneira. (...) os sintomas devem nos guiar ao remédio indicado.” (KENT, 1986, p. 138)

Célia Barollo cita Waltencir Linhares, ao falar da importância dos sintomas:

"O Dr. Waltencir Linhares compara a consulta homeopática a um jogo de quebra-cabeças em que 'as peças juntas nos dão uma figura que lembra um medicamento estudado no homem são'. O conjunto de sintomas e sinais de um paciente compõe como que um quadro, uma gravura descritiva, característica e única desse indivíduo" (BAROLLO, 1995, pp. 22 e 23).

VITALISMO NOS ANIMAIS

Até agora, falamos de uma força vital existente em seres humanos. Mas, e nos animais? Seria possível tratar os animais com Homeopatia, utilizando este modelo vitalista? Juan Gómes afirma que é possível aplicar os princípios da Homeopatia nos animais, pois a força vital é universal, sendo a mesma em todos os seres vivos, e suas manifestações ocorrem em todos eles, da mesma maneira. Dessa forma, todas as doenças dos animais, sejam agudas ou crônicas, físicas ou mentais, graves ou não, podem ser tratadas através do método homeopático. (GÓMES, 1998)

O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS SINTOMAS

Propondo um terceiro nível em Homeopatia (o primeiro nível corresponderia aos sintomas da doença, o segundo nível à totalidade sintomática característica do paciente), Masi Elizalde ressalta que não basta combinar a sintomatologia do medicamento com a sintomatologia do paciente, mas traçar uma relação de semelhança entre a natureza da enfermidade, o paciente e o medicamento. Para Elizalde, os sintomas devem ser avaliados analogicamente, pois são maneiras de um determinado sujeito contar seus sentimentos, suas angústias, seus sofrimentos, sendo que, um outro sujeito poderá contar a mesma coisa com outras palavras.

Analogia significa semelhança de propriedades entre coisas ou fatos. Na filosofia moderna, significa correlação probabilística entre um termo (ou fato) cujo conceito denota um lado observável e verificável e outro (termo ou fato) que, embora não observável e verificável, é inferível dentro de um sistema formal que ofereça regras para essa operação. (Fonte: michaelis.uol.com.br)

Para Masi Elizalde, a analogia é a chave para conseguirmos trabalhar com a Homeopatia de terceiro nível: “Devemos entender que o que temos que captar no doente e no medicamento é o que está por trás da sintomatologia e que comanda a apresentação dessa sintomatologia” (MASI ELIZALDE, 2004, p. 248).

A respeito do pensamento de Masi Elizalde, Paulo Rosenbaum afirma que: “Os sintomas são apenas pistas e não como muitas escolas homeopáticas preconizam, o essencial absoluto do processo indicador da enfermidade" (ROSENBAUM, 1998, p. 150).

Masi Elizalde desenvolveu um método de estudo da matéria médica que nos leva à compreensão do medicamento, através do estudo de seus temas. Da mesma forma, pela seleção dos temas do paciente, podemos chegar ao medicamento mais adequado para ele. Conforme Rosenbaum:

“A totalidade sintomática refere-se à completa descrição de cada sintoma e também ao conjunto de sintomas mais significativos, que individualizam um caso e nos permitem compor uma imagem do paciente. Para chegar à totalidade sintomática olho para o paciente buscando compreendê-lo, procuro estar em ressonância com ele. Para compor a totalidade sintomática, seleciono os sintomas característicos (modalizados) e os temas apresentados pelo paciente.” (ROSENBAUM, 2002, p. 207)

SINTOMA BIOPATOGRÁFICO

O sintoma biopatográfico é muito importante para compreendermos o doente, o seu sofrimento, a sua dinâmica. Consiste no episódio, a partir do qual, o paciente adoeceu. Certa vez, atendi uma cachorrinha que adoeceu a partir do momento em que foi introduzido um filhote na residência. Este constitui o sintoma biopatográfico.

Uma reportagem sobre a resposta biológica ao estresse nos mostra um outro exemplo de sintoma biopatográfico:

"Pesquisadores começam a investigar também a resposta biológica do organismo a eventos causados na infância. As cicatrizes psicológicas de traumas, maus-tratos e negligência emocional não ficam apenas na memória.
- Essas pessoas, quando mais velhas, mesmo com um estado de saúde normal aparente, manifestam alterações inflamatórias no sangue bem mais exacerbadas em relação ao grupo controle, que não teve história de traumas na infância – revela o pesquisador Moisés Evandro Bauer, do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUCRS." (Fonte: Zero Hora, 23/01/2016.)

A CONSULTA HOMEOPÁTICA

Os sintomas do doente são captados durante a consulta homeopática, que consiste em anamnese, observação, exame clínico e exames complementares.

A anamnese é o histórico do paciente, devendo ser detalhado, ao máximo. Por isso, a consulta homeopática demora mais que as consultas convencionais. Há várias maneiras de conduzir a anamnese. A anamnese pode ser livre, de acordo com o relato do proprietário. Ou pode-se estabelecer um roteiro pré-determinado, inclusive utilizando um questionário, que será seguido durante a consulta, ou respondido antes e complementado durante a anamnese. Inclusive, é dessa forma que eu trabalho atualmente.

A observação do paciente é muito importante, e já começa antes da consulta. Se for um cão e ele estiver numa clínica, ver como se comporta com outros cães na sala de espera, se tenta sociabilizar-se, ou demonstra timidez ou algum tipo de agressividade. Entretanto, a consulta domiciliar fornece informações mais ricas sobre o paciente, porque ele está em seu próprio ambiente. Deve-se observar como ele recebe pessoas estranhas (no meu caso, como médico veterinário), como se relaciona com seus donos, com outros animais da casa. Existem cães que nem chegam perto de mim, ficam longe, alguns não gostam nem de serem olhados, se escondem. Outros são mais comunicativos, querem fazer amizade, pedem carinho e até sobem no colo. Essas informações são preciosas na consulta homeopática, ajudando a compor o quadro sintomático do paciente.

O exame clínico deve seguir o modelo convencional, atentando para as particularidades. Qualquer informação proporcionada pelo paciente, seja na sua história, na sua observação ou exame clínico é muito importante. Devemos sempre estar atentos aos detalhes, às sutilezas, ao que chama a atenção, ou seja, ao que é raro, estranho e peculiar.

Anamnese, observação e exame clínico é a base da consulta homeopática, utilizada desde Hahnemann, Kent e outros autores clássicos. Mas, hoje em dia, não tem porque não utilizarmos também os exames complementares, sempre que acharmos necessário. Inclusive, para trabalhar com Homeopatia a partir de uma visão sistêmica é fundamental a utilização de exames subsidiários.

OS SINTOMAS INDIVIDUALIZAM O DOENTE

Célia Barollo afirma ser necessário tratar o doente como um todo, pois o ser humano nunca adoece em uma parte isolada de seu corpo, pois qualquer doença é reflexo de um desequilíbrio de todo o organismo. Barollo ressalta que é preciso identificar os sintomas peculiares a cada doente, aqueles que o fazem diferente dos demais, pois cada indivíduo terá seu medicamento próprio. Dessa forma, enfatiza a necessidade da individualização de cada doente, sendo que o homeopata não deve prescrever segundo uma determinada patologia, mas conforme a compreensão que tem de seu paciente. Assim sendo, índivíduos com a mesma doença poderão receber medicamentos distintos. (BAROLLO, 1995, pp. 22-24 e 56).

O enunciado acima vale também para a Medicina Veterinária. Por isso, nunca canso de lembrar que para tratar um paciente através da Homeopatia, especialmente em quadros crônicos, incluindo os distúrbios comportamentais, é necessário abordá-lo, compreendê-lo e avaliá-lo como um todo, através de um profundo, metódico e meticuloso estudo de seus sintomas, que levará à individualização de cada paciente. Dessa forma, o tratamento pela Homeopatia é específico para o doente, não para a doença. Consideramos os sintomas mentais (comportamento, nos animais), gerais e particulares. A seguir, citarei alguns sintomas característicos de determinados medicamentos, a título de exemplificação. Entretanto, nunca deve-se basear a prescrição por somente um sintoma específico, sob pena de proporcionarmos apenas um alívio leve, parcial ou transitório nos sintomas do paciente, acarretando em uma evolução insatisfatória, o que leva, muitas vezes, ao descrédito do tratamento homeopático, sendo colocado no mesmo o rótulo de ineficaz, estando inserido no rol de práticas místicas ou exotéricas, sem embasamento científico, pois a Homeopatia não passaria de um placebo. Portanto, meus amigos, muito cuidado, seriedade e responsabilidade ao utilizar o sistema terapêutico que utiliza o princípio da semelhança!

Dentre os sintomas mentais, estão os relacionados à emoção, vontade, razão, inteligência e memória. Além das ilusões. Mas você pode me perguntar: “É possível encontrar sintomas mentais nos animais?” Respondo que sim, é possível. Alguns mais facilmente, outros nem tanto. Alguns mais confiáveis, outros menos. Os sintomas que dizem respeito à emoção são relacionados a amores e ódios. Por exemplo, o transtorno por desapontamento amoroso é uma característica de Natrum muriaticum e Ignatia amara. Certa vez, atendi um cachorrinho que adoeceu por ser rejeitado por uma fêmea de sua espécie. Ele deveria receber obrigatoriamente um destes medicamentos? Não, necessariamente! Mas este constitui um sintoma muito importante para compreender e compor o quadro deste paciente. Porém, volto a afirmar que nunca devemos prescrever qualquer medicamento por um único sintoma, mas pela compreensão que obtermos do paciente, em função da totalidade de seus sintomas. Por exemplo, o repertório digital Synthesis indica 51 medicamentos para o sintoma "Transtornos por desapontamento amoroso". Além de Ignatia e Natrum muriaticum, que apresentam o maior grau de pontuação, também aparecem Aurum metallicum, Hyosciamus niger, Phosphoricum acidum e Staphysagria com um grau inferior de pontuação, além de Belladonna, Causticum, Conium maculatum, Lachesis mutus e outros 41 medicamentos que apresentam este sintoma. Por isso, a importância de compreender o paciente como um todo, através de uma avaliação criteriosa, a fim de selecionar o medicamento mais adequado para tratá-lo. Em outra ocasião, atendi um canino que tinha ciúme violento de seus pertences, incluindo a sua comida, chegando a agredir pessoas e matar outros animais. O ciúme com fúria é uma característica de Hyosciamus niger; e isso pode levá-lo a matar. Em relação à vontade: por exemplo, o desejo de viajar é uma característica de Calcarea phosphorica. Atendi um cachorrinho que, ao ver seus donos arrumando as malas, era o primeiro a querer entrar no carro, para sair em viagem de férias. Razão: por exemplo, Aurum metallicum sente-se culpado, tem ansiedade de consciência, sentindo que negligenciou o seu dever. Inteligência: p. ex., Opium apresenta um embotamento mental, uma deficiência de ideais. Memória: p. ex., Phosphoricum acidum esquece das palavras enquanto fala. Ilusões: Belladonna apresenta alucinações, visualizando coisas horríveis. Atendi um gatinho que, de uma hora para a outra, olhava para uma direção qualquer e, sem nenhum motivo, saía correndo, como se apavorado.

Os sintomas gerais são os que dizem respeito a todo o indivíduo, tais como, os relacionados ao sono, a lateralidade e a febre. Eis alguns exemplos: Mercurius solubilis está pior durante o sono; Sepia apresenta uma predominância dos sintomas do lado esquerdo; ausência de sede durante a febre, que é uma característica de Pulsatilla nigricans. Inclusive, estes sintomas também podem estar relacionados a fatores ambientais, tais como, clima e horário. Por exemplo: os sintomas de Dulcamara pioram consideravelmente com o clima úmido; Phosphorus está pior durante uma tempestade; uma das características do medicamento Lycopodium clavatum é a piora dos sintomas entre às 16 e às 20 horas.

Os sintomas particulares são aqueles localizados nos diferentes sistemas orgânicos. A seguir, alguns exemplos. Um prurido cutâneo queimante, que é característica de Arsenicum album e de Sulphur; Bryonia alba apresenta dor de cabeça que melhora por pressão externa; vômitos após beber, que é uma característica de Phosphorus; micção involuntária durante as convulsões, que é uma particularidade de Bufo rana.

De acordo com Bönninghausen, para que um sintoma seja confiável, característico, ele deve conter ao menos três de quatro elementos: a) fenômeno ou sensação; b) localização – é o órgão, o tecido afetado; c) modalização – é o que modifica, são as circunstâncias, desencadeantes, horário e periodicidade; d) concomitantes – acompanham a queixa principal. Exemplo de um sintoma característico, conforme Bönninghausen: prurido (fenômeno; localizado na pele) à noite (modalização) quando tocado (concomitante).

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Dr. Celso Affonso Machado Pedrini

Médico Veterinário

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