AFINAL, A HOMEOPATIA FUNCIONA OU NÃO?



AFINAL, A HOMEOPATIA FUNCIONA OU NÃO?


M.V. Celso Affonso M. Pedrini

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Homeopatia significa "semelhante cura semelhante", ou seja, é o tratamento através do princípio da semelhança, que já havia sido proposto por Hipócrates, mas foi colocado em prática por Samuel Hahnemann há mais de duzentos anos atrás. O medicamento homeopático cura no doente os mesmos sintomas que é capaz de desenvolver em organismos saudáveis. E isto acontece, é uma realidade incontestável, seja em seres humanos ou em animais! A Homeopatia tem condições de tratar doenças físicas e mentais (comportamentais, nos animais), sejam agudas ou crônicas. Considero que a grande questão é de que forma podemos utilizar o tratamento pelos semelhantes, a fim de alcançarmos um alto grau de eficácia através do tratamento homeopático.

Em um primeiro momento, utilizar a Homeopatia pode até parecer simples, devendo-se respeitar a relação de semelhança entre os sintomas do doente e os sintomas do(s) medicamento(s) homeopático(s) mais adequado(s). Mas se a evolução do paciente não for a esperada? Se não houver melhora e até mesmo seu quadro clínico piorar? É nestas horas que percebe-se a importância de se ter um profundo conhecimento e uma apropriada experiência em Homeopatia. Fazendo uma analogia, não é tão difícil o estudante de Medicina Veterinária aprender a realizar uma cirurgia. O que distinguirá este último de um cirurgião com vasta experiência é a atitude que cada um tomará se ocorrer alguma grave intercorrência durante o procedimento.

Não há apenas uma única maneira de empregarmos o princípio da semelhança no tratamento de nossos pacientes. Existem diferentes correntes terapêuticas (o exemplo mais óbvio é a contraposição entre unicismo e pluralismo), com diferentes escolas em cada uma destas correntes, utilizando, muitas vezes, metodologias distintas. Por isso é que gosto sempre de ressaltar que trago a minha visão a respeito da Homeopatia, que está de acordo como o meu histórico, com o que estudei e com a minha experiência. Portanto, outro homeopata, seja médico humano ou veterinário, poderá ter uma compreensão distinta da minha, que estará de acordo com o seu histórico, com o que estudou e também com sua experiência. Mesmo que hajam divergências em diversos pontos, isto não significa, necessariamente, que qualquer um de nós esteja errado. Apenas estaremos expressando a compreensão que cada um de nós tem sobre o tratamento pelos semelhantes. O especialista em psicologia comportamental Robert Anthony afirma que "Todas as suas decisões e ações são baseadas no seu atual nível de informação, percepção, conhecimento e convicção. (...) O fato é que você nunca pode fazer e construir melhor do que está fazendo e construindo neste momento, porque está limitado pelo seu atual nível de informação. Daí, o melhor que você realiza atualmente ainda contém alguns defeitos. (...) Somente depois que seu nível de informação, percepção e convicção for elevado, ampliado e expandido é que você poderá fazer, realizar e construir melhor" (ANTHONY, Robert. As Chaves da Autoconfiança. 8ª ed. São Paulo, Ed. Best Seller, p. 70). Portanto, cada um de nós sempre faz o melhor que pode, dentro das limitações individuais e peculiares a cada um. Na minha opinião, quanto mais conhecimento e experiência incorporarmos em nosso "acervo profissional", maior será a nossa qualificação, diferenciação e também maior será a possibilidade de proporcionarmos um atendimento de excelência, alcançando resultados altamente satisfatórios em nosso trabalho com Homeopatia.

Acredito na importância da flexibilidade para a escolha da melhor maneira de tratar cada um de nossos pacientes. Por que utilizar sempre a mesma metodologia para tratar doentes com quadros tão distintos? Devemos abordar da mesma forma um canino portador de distúrbio comportamental e outro diagnosticado com tumor maligno? Será correto utilizar a mesma metodologia para tratamento de um paciente portador de determinada dermatopatia e de outro apresentando um quadro neurológico, como paralisia, por exemplo? Na minha opinião, devemos sempre colocar o foco no doente, ou seja, adaptar o método ao paciente, e não o contrário. Mas, para isso, é necessário realizar um estudo profundo, minucioso e individualizado de cada doente, além de estudar outras correntes terapêuticas e escolas homeopáticas, a fim de ampliar e diversificar as possibilidades de abordagem e tratamento. Este é um dos pontos-chave da metodologia que estou desenvolvendo e aprimorando há mais de duas décadas, sendo a mesma que utilizei no estudo para avaliar a eficácia da Homeopatia no tratamento de doenças crônicas e distúrbios comportamentais em caninos e felinos, com excelentes resultados.

Tive formação unicista, baseada em autores clássicos, como Hahnemann, Kent e Paschero, entre outros. Após concluir minha especialização, estudei a metodologia proposta por Masi Elizalde. Nos primeiros anos de trabalho com Homeopatia, sempre procurei utilizar a metodologia ensinada em meu curso de especialização, que consiste em encontrar a totalidade sintomática característica do paciente, levando em consideração seus sintomas mentais (comportamento, nos animais), gerais e físicos, valorizando a chamada síndrome mínima de valor máximo, visando a sua individualização, pois o tratamento é voltado ao doente, e não somente à doença que ele apresenta. Dessa forma, procurava sempre utilizar esta metodologia, seja qual fosse o quadro do paciente, procurando encontrar o medicamento específico para o doente, que abrangesse a sua totalidade sintomática característica, medicamento este que seria capaz de colocar a sua força vital em harmonia, de acordo com a concepção vitalista, utilizada por Hahnemann, o criador da Homeopatia. Confesso que, nesta época, costumava relegar o diagnóstico clínico (da doença) a um plano secundário, pois o objetivo era tratar o doente, não a doença. Tive ótimos e excelentes resultados utilizando esta metodologia; mas também resultados apenas regulares e alguns insucessos. Certa vez atendi um poodle, extremamente agressivo com seus proprietários. Após um profundo e minucioso estudo, utilizando a metodologia unicista, prescrevi um único medicamento homeopático, que proporcionou uma evolução extremamente positiva, desde a primeira tomada, tornando este paciente mais dócil, não agredindo mais os seus proprietários. Este fabuloso resultado só foi possível por ter utilizado a abordagem adequada, compreendendo o paciente integralmente, através da manifestação de seus sintomas, o que permitiu chegar à sua individualização, através da prescrição do medicamento mais apropriado para este paciente. Se tivesse utilizado alguma outra metodologia, provavelmente não teria sucesso (ou, pelo menos, este não seria tão exuberante).

Há alguns anos atrás, atendi um canino diagnosticado com demodiciose. No começo empreguei a metodologia unicista, conforme expliquei no parágrafo anterior. Apesar de ocorrerem melhoras desde o começo do tratamento, julguei que estas poderiam ser de um grau superior. Por isso, após alguns meses, resolvi aplicar conceitos inerentes à visão sistêmica, tendo por base os conhecimentos adquiridos no "Curso de Medicina Interna e Terapêutica - Nível Pós-graduação", que realizei pela ABRAH. A partir deste momento, a evolução foi extremamente rápida e positiva, com a remissão de todos os sintomas cutâneos, com o paciente permanecendo estabilizado durante o período em que esteve sob o nosso acompanhamento. Este é um belo exemplo da importância que tem a flexibilização no momento da escolha de qual será a metodologia mais adequada para tratar o paciente. Mas, para isso, é essencial o estudo contínuo, não só em nossa área específica de atuação, mas também ter a curiosidade e até a coragem de desbravar outros caminhos, mesmo que, em um primeiro momento, pareçam desviar-se de nosso foco principal. Sem dúvida, isto aumenta a amplitude de nossa atuação terapêutica. Se eu não tivesse feito este curso de Homeopatia aplicada numa visão de sistemas complexos, que possui uma concepção totalmente distinta do vitalismo, que é a base para as escolas unicistas, dificilmente teria alcançado este resultado altamente satisfatório. De acordo com os conceitos inerentes à visão sistêmica, passei a considerar o diagnóstico clínico e a fisiopatologia dos sintomas apresentados pelo paciente.

Logo após concluir meu curso de especialização, atendi um felino apresentando um quadro de paralisia em membro posterior direito, iniciada após aplicação de medicamento por via intramuscular. Após o insucesso do tratamento clássico, sua proprietária me procurou por ter sido indicada a amputação do membro afetado. Para abordar este quadro tão grave e complexo, me baseei em Samuel Hahnemann, o criador da Homeopatia. No parágrafo 5 de seu "Organon da Arte de Curar", Hahnemann afirma que "Como auxílio da cura servem ao médico os dados detalhados da causa ocasional mais provável da doença aguda...", sendo que no parágrafo 7 define "causa ocasionalis" como a causa que "manifestamente ocasione ou mantenha a doença". Seguindo a classificação da origem das doenças, proposta por Hahnemann, o quadro do paciente estaria incluído em "doenças traumáticas e locais por causas externas". Angel Minotti, no livro "Traumatismos y Heridas, Complicaciones y Sequelas", afirma que o tratamento destas afecções não pode ser encarado como uma doença verdadeiramente crônica, sendo que o medicamento de fundo ou constitucional (aquele eleito a partir da totalidade sintomática característica do paciente) de nada servirá, exatamente por não tratar-se de doença crônica. Minotti coloca em primeiro lugar na hierarquização de quadros agudos e crônicos lesionais a "Causalidade, desencadeante dos sintomas atuais". Foi utilizando este raciocínio que fiz um profundo e minucioso estudo do quadro clínico apresentado por este paciente, prescrevendo um único medicamento, administrado em doses repetidas. Em uma semana, o paciente já conseguia movimentar o membro afetado, caminhando com ele levantado, sem arrastá-lo no chão. E duas semanas após o início do tratamento homeopático, este gatinho já caminhava normalmente, para grande felicidade de sua proprietária. Este felino permaneceu sendo meu paciente e nunca mais apresentou nenhum tipo de distúrbio locomotor ou paralisia. A evolução extremamente positiva deste caso, que evitou que o paciente tivesse o seu MPD amputado, surpreendeu e encantou sua proprietária e demais familiares, superando totalmente suas expectativas, neste caso em que a Medicina Clássica havia esgotado os seus recursos. Mas isto só foi possível com muito estudo e por utilizar a abordagem mais adequada para o tratamento deste paciente.

Outro exemplo da importância da flexibilização na abordagem de nossos pacientes, ocorreu durante o tratamento de um canino, de 14 anos de idade, diagnosticado com tumor vesical. Iniciei a abordagem desta paciente, que tratei de forma complementar à colega Médica Veterinária que a encaminhou para o tratamento homeopático, empregando a metodologia unicista. Entretanto, pela ocorrência de uma provável agravação homeopática (que é um dos fenômenos que podem ocorrer durante o tratamento, sendo, muitas vezes, até benéfico), optei por trocar de estratégia, utilizando conceitos da escola francesa de Homeopatia, especialmente de Léon Vannier, além de conhecimentos adquiridos em palestras e cursos proferidos pelo Dr. Cláudio Martins Real. A partir deste momento, a evolução passou a ser bastante positiva, melhorando significativamente o seu quadro urinário, principalmente em relação à disúria e hematúria, além de melhorar a sua disposição e qualidade de vida, durante o período em que esteve sob o nosso acompanhamento. Este é um exemplo bastante representativo do potencial do tratamento pela Homeopatia, mesmo em quadros mais complexos, pois esta paciente era idosa e apresentava uma lesão orgânica grave. Deve-se salientar, ainda, o sucesso proporcionado pelo emprego da Homeopatia associada à Medicina Clássica, não sendo, na minha visão, métodos antagônicos ou excludentes, mas, isto sim, complementares, atuando em sinergia, em prol e benefício de nossos pacientes.

Alguns fatores devem ser levados em consideração para o sucesso do tratamento homeopático: respeito à relação de semelhança entre sintomas; o doente, desde seu caráter genético e hereditário, com suas predisposições, até seu estado de higidez orgânica (idade, se há alguma lesão orgânica grave, etc.); respeito à concepção de saúde e doença em Homeopatia, tratando o doente em sua totalidade, buscando a sua individualização - o tratamento pela Homeopatia é específico para o doente (o que vale, especialmente, para doenças crônicas); sequência no tratamento (também em quadros crônicos); ambiente em que o paciente vive, com identificação de possíveis fatores que dificultariam o processo de cura; capacitação e experiência profissional do homeopata; compreensão e consciência dos principais conceitos em Homeopatia, por parte dos proprietários de pacientes, para que os mesmos deem continuidade ao tratamento (no caso da Medicina Veterinária); procedência e conservação dos medicamentos homeopáticos.

Concluindo, trabalhar com Homeopatia pode até parecer fácil, mas esta é uma pérfida armadilha que poderá engolfar seus iniciantes, fazendo-os desacreditar e até desistir de empregar este sistema terapêutico. Na verdade, trabalhar com Homeopatia exige muito estudo, dedicação, conhecimento, critério e responsabilidade. Acrescentaria, ainda, que o grau de maturidade, aliado à consciência profissional, é outro fator fundamental para alcançarmos a excelência no atendimento e afirmarmos, com a mais clara e absoluta certeza e convicção, que a Homeopatia funciona, apresentando o potencial de ser um sistema terapêutico altamente eficaz, desde que sejam respeitadas algumas condições básicas e seja praticada por profissionais sérios e plenamente capacitados.




Dr. Celso Affonso Machado Pedrini

Médico Veterinário

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