PORQUE OPTEI PELA HOMEOPATIA VETERINÁRIA



PORQUE OPTEI PELA HOMEOPATIA VETERINÁRIA


M.V. Celso Affonso M. Pedrini

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Desde criança, sempre tive um carinho especial pelos animais. Já tive como "bichos de estimação", entre outros, tartarugas, peixes, caturrita, periquitos, canários, galo, galinhas, abelhas, coelho e, logicamente, cães e gatos. Chegavam até mim na forma de presentes ou simplesmente apareciam no quintal de casa. Sempre procurei tratá-los com atenção, amor e afeto. Amadureci e, concomitantemente, adquiri a consciência que a melhor forma de amá-los e respeitá-los é mantê-los em liberdade em seu habitat natural, desde que tenham condições básicas de alimentação, segurança, reprodução, enfim, sobrevivência. Isto em relação aos animais silvestres.

Ainda adolescente, precisava fazer minha opção para o vestibular. "Mas, afinal, que profissão vou escolher?" Direito, seguir o caminho do meu pai, não me atraía. Afinal, advogados, promotores, etc., necessitam saber usar bem as palavras, falar fluentemente e com eloquência. Mas esse não era bem o meu caso. Ciências exatas, nem pensar, pois nunca gostei de lidar com números. Medicina? Só de pensar em ver sangue, já me fazia passar mal. Mas que dilema!

Um dia, aos 16 anos, cursando o 2º ano do 2º grau, no colégio Nossa Senhora das Dores, em Porto Alegre, assistia a uma aula, quando surgiu em minha mente um pensamento óbvio: "Por que não seguir a carreira de médico veterinário?" A favor, a minha grande identificação e apreço pelos animais: poderia ajudá-los, curar suas doenças, salvar vidas. Contra, o fato de que achava que não tinha muito jeito para medicina. Sempre achei que deveria escolher uma profissão que me trouxesse satisfação, ou seja, deveria trabalhar naquilo que gosto, relegando o fator economico a um plano secundário. E, naquele instante, tomei a decisão de ser médico veterinário, única e exclusivamente pelo amor, carinho e respeito que sinto pelos animais. Acho que todos nós temos uma função a cumprir neste mundo. E a minha seria de ajudar os animais, curando suas doenças, aliviando seus sofrimentos e mantendo-os saudáveis.

Desde o início do Curso de Medicina Veterinária, tive por objetivo trabalhar com pequenos animais, mais especificamente, cães e gatos. Não me agradava a ideia de tratar um animal de grande porte, cujo único valor a ser considerado pelo seu proprietário era o econômico, sendo que, em grande parte das vezes, o seu triste fim seria o abate, para servir de alimento para nós, seres humanos, detentores do poder e da supremacia intelectual deste planeta, "racionais", "superiores", "onipotentes". Afinal, preservamos os recursos naturais, não poluímos, não fazemos guerras, não agredimos nem matamos nossos semelhantes, não colocamos espécies à beira da extinção, não matamos outras espécies por prazer, não exploramos os recursos naturais à exaustão, nem colocamos em risco nossa própria existência, assim como toda a vida neste planeta. Isto deve ser obra de espécies "inferiores", "irracionais"... É lógico que estou sendo bastante irônico! Mas este já seria um belo tema para outro artigo.

Voltando ao assunto, sentia-me melhor tratando de animais cujo vínculo emocional com seus proprietários fosse grande, sendo que, na maioria das vezes, os mesmos eram tratados como "membros da família". Por isso a minha opção pela clínica de cães e gatos. Além disso, em função das peculiaridades de cada espécie, achava que não deveria expandir meu trabalho para outras espécies animais, procurando, assim, priorizar um estudo e trabalho de qualidade, em detrimento da diversidade.

Na metade final do curso, comecei a fazer estágios, paralelamente aos estudos curriculares. E foi onde mais aprendi, pois complementava, na prática, os conhecimentos recebidos nas aulas teóricas.

Mas havia algo que me incomodava muito, me deixando extremamente angustiado e inconformado: a "eutanásia". Não aceitava que a medicina veterinária "condenasse alguns pacientes à morte", simplesmente por ter esgotado seus recursos, seus conhecimentos... "Não há mais nada a fazer!", "Não há cura para tal doença!", "Não existem estudos a respeito...", "Recomendamos a eutanásia para aliviar seu sofrimento. Vai ser melhor para ele..." Nunca aceitei e nem me conformei com esta postura. Apesar que, por um determinado periodo, infelizmente, já a pratiquei. Mas me arrependo muito. Encontro conforto na citação do livro "As Chaves da Autoconfiança", de Robert Anthony: "Todas as suas decisões e ações são baseadas no seu atual nível de informação, percepção, conhecimento e convicção." Ainda: "Você sempre faz o máximo esforço. O fato é que você nunca pode fazer e construir melhor do que está fazendo e construindo neste momento porque está limitado pelo seu atual nível de informação. Somente depois que seu nível de informação, percepção e convicção for elevado, ampliado e expandido é que você poderá fazer, realizar e construir melhor." (ANTHONY, Robert. As Chaves da Autoconfiança. 8ª ed. São Paulo, Ed. Best Seller, p. 70)

Foi durante as aulas de Clínica, no ano de 1985, que conheci a Dra. Maria de Lourdes Alexandre. E ela acrescentava em seu trabalho a Homeopatia. Eu já tinha ouvido falar, lido algo a respeito mas, naquela época, pensar em utilizar a Homeopatia na clínica veterinária seria um ato muito audacioso de minha parte. E a Homeopatia apresentava-se como uma alternativa, por sua concepção totalmente diferenciada da medicina convencional, colocando o foco no doente, no indivíduo, levando em consideração a sua unidade, ou seja, tratando-o como um todo.

Hoje posso afirmar, categoricamente, que se não fosse pelo exemplo da Dra. Maria de Lourdes, professora da cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, eu não teria apostado na Homeopatia naquela época. Talvez tivesse perdido vários anos de estudo...

Ainda em 1985, participei, em Niterói-RJ, do IV Simpósio Brasileiro de Homeopatia Veterinária. Nesta ocasião, entrei em contato com profissionais e estudantes de Veterinária de várias regiões do país que estavam interessados, estudavam ou trabalhavam com Homeopatia. O que era um sonho, de ter uma alternativa terapêutica para aqueles pacientes considerados "desenganados", começava a tornar-se realidade.

Em função de provas, estágio curricular, e tentando sempre aprender mais sobre a "Medicina Veterinária Convencional", tanto na área clínica e cirúrgica, acabei não levando adiante os estudos sobre Homeopatia, mas nunca deixei de vislumbrar no meu horizonte profissional a possibilidade de sua aplicabilidade clínica.

Em fevereiro de 1989, já formado há mais de um ano, comecei a frequentar no Instituto Homeopático Jacqueline Peker, em Campinas-SP, o I Curso de Homeopatia para Médicos Veterinários. Infelizmente, não pude conclui-lo, em função de ter passado no Concurso para Residência Médica no Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS, em Porto Alegre-RS.

Tenho, por princípio, só utilizar um método terapêutico após estudá-lo profundamente. Em vista disso, até então, nunca havia utilizado a Homeopatia na minha prática clínica. Sentia que precisava adquirir mais conhecimentos, estudar mais, enfim, fazer um curso de especialização, com professores que já tivessem uma "bagagem" de experiência em seu currículo.

Enquanto atuava como médico veterinário residente, atendi um paciente da espécie felina, raça Siamês, sexo masculino. Diagnóstico, na época: síndrome urológica felina (ou doença do trato urinário inferior dos felinos, atualmente - ao menos, enquanto não trocarem novamente a sua denominação). O paciente apresentava uma provável obstrução de vias urinárias, apresentando anúria, apatia e inapetência. Após alguns dias de internação, em que foram efetuados os procedimentos convencionais cabíveis para o caso, o paciente apresentava-se cada vez pior, tendo um quadro de debilidade generalizada e uremia. O único tratamento capaz de salvá-lo seria a cirurgia. Mas ele estava muito fraco, debilitado e, provavelmente, não resistisse à intervenção cirúrgica e anestesia geral. Talvez, no que possa ser considerado um ato impulsivo e ousado, momentos antes do paciente ir para a mesa cirúrgica, administrei alguns medicamentos homeopáticos, de uma forma totalmente empírica (hoje posso confessar), após consultar um livro de Homeopatia Veterinária para Gatos, que estabelecia um determinado tratamento para este quadro clínico. Administrei os medicamentos enquanto cumpria minhas funções de residente. E qual foi minha surpresa? Antes, vamos recordar, que o paciente (um felino, raça Siamês, sexo masculino) não urinava, sendo que, pela sonda uretral, saíam pouquíssimas gotas de urina sanguinolenta, levando-o a um quadro urêmico. E, para meu espanto, após aproximadamente 15 minutos, este gatinho, que há dias não urinava, passou a urinar em um volume razoável, sendo que a urina apresentava uma coloração clara, sem sangue. A cirurgia foi desmarcada, eu continuei administrando os medicamentos homeopáticos, o paciente, que estava à beira da morte, começou a recuperar-se, não apresentou mais obstrução uretral, passou a urinar normalmente e teve alta, indo "feliz da vida" para casa, assim como seus donos.

Considero este episódio um marco em minha vida profissional. Foi num caso desesperador, em que praticamente não haviam outras opções "seguras", que a Homeopatia mostrou, para mim, a sua eficácia. Ou seja, descobri que a Homeopatia funciona mesmo, na prática, e não só na teoria. A questão que se coloca é a seguinte: funciona sempre? Depende. Depende de que? Depende da relação de semelhança entre os sintomas apresentados pelo paciente (doente) e os sintomas despertados pelo medicamento homeopático quando administrado a um organismo sadio. O medicamento homeopático cura no organismo doente os mesmos sintomas que ele provoca em um organismo saudável. Este é o princípio (ou lei) da semelhança. É necessário que ele exista a fim de que ocorra a cura. Depende também do organismo do paciente, de sua capacidade de resposta, de sua estrutura física. De fatores relacionados ao seu caráter genético e hereditário, com suas predisposições. Depende de sua constituição, idade, se existe ou não lesão orgânica e o grau da mesma, órgão(s) comprometido(s), etc., são alguns dos fatores a serem considerados.

Se quisermos atuar em alto nível, proporcionando um trabalho extremamente qualificado, necessitamos de muito estudo e dedicação. Um estudo contínuo e profundo é condição básica para que o homeopata consciente possa utilizar-se deste maravilhoso e complexo instrumento de cura que é a Homeopatia.

Cada paciente é único, não existe outro igual. Assim sendo, precisamos individualizá-lo, respeitando também a sua unidade, ou seja, tratando-o como um todo, sistemicamente. Podemos, para isso, utilizar caminhos distintos, utilizando conceitos, conhecimentos e abordagens de diferentes escolas homeopáticas. Mas respeitando estes dois conceitos fundamentais: unidade e individualização. O que vale, especialmente, para o tratamento de quadros crônicos (incluindo os distúrbios comportamentais), que é a minha área de atuação.

A Homeopatia atua tanto em doenças agudas, quanto crônicas. E tem uma ação espetacular em transtornos de comportamento. Isto sem apresentar efeitos tóxicos e colaterais, por não ter atuação bioquímica. Especula-se que ação da Homeopatia seja biofísica, em caráter informacional, mediante sinais eletromagnéticos. Há fortes indícios de que os medicamentos homeopáticos atuem através de campos eletromagnéticos oscilando em diferentes frequências. Para saber mais sobre este tema, sugiro a leitura de "Alguns comentários sobre a ação do medicamento homeopático").

Também não devemos esquecer que o objetivo da Homeopatia não é apenas tratar doenças, nem suprimir seus sintomas. O objetivo da Homeopatia é tratar o doente, como um todo, individualizando-o, tentando compreender suas suscetibilidades e seu processo de adoecimento. E como fazemos isso? Através de um profundo e minucioso estudo de seus sintomas. Talvez eu tenha tido "sorte" ao tratar aquele gato Siamês com obstrução uretral, pois não segui os fundamentos básicos da Homeopatia. Mas o princípio da semelhança foi obedecido, o paciente saiu de um quadro gravíssimo e recuperou a sua saúde. E eu pude confirmar e me convencer que a Homeopatia Veterinária é uma realidade!

De 1992 a 1994 fiz e concluí o Curso de Especializaçao em Homeopatia, pela Sociedade Gaúcha de Homeopatia, em Porto Alegre-RS, onde tive a felicidade de ter a Dra. Maria de Lourdes Alexandre novamente na qualidade de professora, mais especificamente nas aulas práticas. Iniciei o meu trabalho com Homeopatia Veterinária em 1992, em meu consultório, sendo que, paulatinamente, fui dedicando-me a trabalhar exclusivamente com Homeopatia, pois a mesma necessita de muito estudo, para que possamos efetuar um trabalho da mais alta qualidade.

A partir de 1996, passei a prestar atendimento exclusivamente domiciliar, em Porto Alegre e interior do Rio Grande do Sul, tendo por objetivo o tratamento de doenças crônicas e distúrbios de comportamento em cães e gatos.

Passei a ter o critério de não atender quadros agudos, de urgência, pelos seguintes motivos:

a) Há necessidade de uma estrutura física, uma clínica ou consultório, que tenha as mínimas condiçoes para atender pacientes com estes quadros.

b) Um quadro agudo necessita de pronto atendimento; segundos podem fazer a diferença entre a vida e a morte. Eu não tenho, como médico veterinário homeopata, que gasto de uma hora e meia a duas horas (pelo menos) numa consulta, condições de atender estes quadros, sem prejudicar meu trabalho como homeopata ou colocar em risco a vida do paciente em quadro crítico.

c) Senti a necessidade, naquele momento, de dedicar-me exclusivamente ao estudo da Homeopatia, seus conceitos, sua filosofia, sua matéria médica, sua prática clínica. Julguei que só assim poderia proporcionar um trabalho de qualidade, tornando-me um verdadeiro Médico Veterinário Homeopata.

d) Em quadros agudos, de urgência, partilho do conceito que precisamos mobilizar todos os esforços, esgotar todos os recursos para salvar a vida do paciente, seja qual for o método ou métodos terapêuticos empregados. O fundamental, neste momento crítico, é mantermos o paciente vivo. Após, com o quadro já estabilizado, então poderemos optar pelo método terapêutico que julgarmos mais adequado ao tratamento do paciente. Creio que, desta forma, estaremos privilegiando o bom senso.

e) Fico feliz ao constatar, atualmente, o crescente interesse em cursos de especialização, por parte de médicos veterinários. A exemplo do que já ocorre há mais tempo na medicina humana, hoje temos na medicina veterinária, profissionais especializados em diversas áreas, o que eleva o nível e a qualidade de atendimento.

f) Lembro que a Homeopatia trata também quadros agudos. A opção de trabalhar apenas com doenças crônicas e distúrbios de comportamento é minha, pelos motivos acima expostos. A vida do paciente e o bom senso devem imperar acima de qualquer coisa.

Bom, espero ter respondido a questão proposta no título deste artigo. Ainda poderia citar outros aspectos, como a ausência de efeitos tóxicos (desde que empregada de forma criteriosa por profissional capacitado), custos de medicamentos, ação preventiva, ação em nível mental/emocional (comportamental, nos animais), etc. Mas, para mim, o que realmente importa, é a possibilidade de tratarmos nossos pacientes de outra forma, mais natural, menos agressiva e "mecânica", compreender o enfermo, tratá-lo sistemicamente, como um todo, e não apenas suprimirmos sintomas, "tratando doenças". O que importa é termos opçoes de tratamento, de termos a possibilidade de sempre fazermos "algo a mais", nem que seja proporcionar qualidade de vida a um paciente com uma doença considerada "incurável". E, com isto, contribuir para que cada vez menos animais sejam condenados à eutanásia.

Obs.: Este texto foi escrito originalmente no segundo semestre de 2008, sendo revisado em 2016.




Dr. Celso Affonso Machado Pedrini

Médico Veterinário

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